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Como
suposta prova de que o vírus tem função neutra no
que toca à Aids, Duesberg cita a demora do HIV em desencadear a
doença - o que não combina com o comportamento da maioria
dos outros vírus conhecidos, que ou atacam logo ou são rapidamente
destruídos pelos anticorpos. Diante desse argumento, Zanotto é
incisivo: "Esse cara parou no tempo". Durante muito tempo se
falou em um "período de incubação" aparentemente
estável do HIV: o vírus permaneceria anos inofensivo, até
causar a Aids e matar o paciente. Em 1996, um estudo feito pela equipe
do biofísico Alan Perelson, do Laboratório Nacional de Los
Alamos, nos Estados Unidos, demonstrou que essa imagem não batia
com a realidade. "Na verdade, há uma luta entre o sistema
imunológico e o vírus", diz Avidan Neumann, biomatemático
da Universidade Bar-Ilan, de Israel, que participou do estudo de Perelson.
O tempo que o vírus fica "inativo", na verdade, corresponderia
ao período em que o corpo consegue se defender dele.
Se Duesberg está certo a respeito da inocência do vírus
em relação à Aids, por que as pessoas soropositivas
acabam, dentro de alguns anos, desenvolvendo a síndrome? Para ele,
a resposta é que a imunodepressão é causada pelas
drogas anti-HIV, como o AZT, que prejudicam a reprodução
das células do sistema imunológico. Segundo Rasnick, parceiro
de Duesberg no artigo publicado em 1997, essa droga, que durante muitos
anos foi usada como a principal arma contra a Aids, teve seu lado ruim
encoberto. "Em 1986, o estudo de licenciamento conduzido pelo Instituto
Nacional do Câncer e pelo laboratório Burroughs-Wellcome
erroneamente subestimou a toxicidade do AZT em 1 000 vezes", afirma.
"No entanto, desde 1987, a dose prescrita só foi reduzida
em três vezes."
Apoiado por Rasnick, Duesberg afirma que os remédios anti-HIV representariam
"Aids por prescrição médica", matando portadores
do vírus. Basicamente porque, ao bloquear o vírus, bloqueia
também o sistema imunológico do paciente. E pior ainda:
seriam dados sem necessidade, já que os testes de Aids dão
positivo quando encontram os anticorpos para o HIV - e não o vírus
- no sangue dos pacientes (para ele, os anticorpos seriam justamente o
sinal de que o organismo já erradicou o invasor).
Nesse ponto, Neumann, co-autor do estudo que concluiu que o tempo de incubação
do HIV não significa que ele seja inofensivo, é outra voz
a acusar Duesberg de anacronismo. Segundo ele, os métodos de detecção
do HIV por meio de anticorpos não são mais usados sozinhos
para determinar se alguém é soropositivo - e se deve ser
medicado ou não. "Hoje ninguém é tratado se
não se encontra o RNA (código genético) do vírus
em seu organismo", diz Neumann. O estudo do laboratório de
Los Alamos demonstrou também que as drogas aumentam a capacidade
do organismo de resistir ao vírus; conforme elas eram administradas,
a quantidade de HIV no corpo diminuía e o sistema imunológico
se recuperava. Mas a Aids acaba surgindo quando uma mutação
do vírus consegue passar pela barreira imunológica e pelos
medicamentos (quando se usa apenas o AZT isso pode ocorrer em poucas semanas
- a vantagem do coquetel é a de que é mais difícil
para o HIV escapar de várias drogas). Duesberg evitou comentar
o artigo em que as evidências acima foram publicadas, dizendo que
não tinha acesso a ele na Alemanha - país onde passa metade
do ano, atualmente. Mesmo após receber uma cópia enviada
por fax pela reportagem da Super, não teceu comentários.
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