O epidemiologista norte-americano Jay Levy, da Universidade da Califórnia, em San Francisco, tem uma visão oposta à de Duesberg. Ele atribui ao "efeito fundador" a predominância de casos masculinos de Aids nos países desenvolvidos. "A infecção pelo vírus começou essencialmente na comunidade homossexual", diz ele. "O vírus se espalha mais rapidamente pelo contato anal-genital. Como esse tipo de transmissão é mais comum entre homossexuais, isso explicaria uma taxa inicial mais alta entre os homens", afirma. Dessa forma, Levy acredita que o número de mulheres norte-americanas com Aids tende a aumentar nos próximos anos.
E o descobridor do HIV, o francês Luc Montagnier, do Instituto Pasteur de Paris, como se coloca nesse debate? Ele acredita que "ainda é necessário explicar por que a Aids não é tão heterossexualmente transmitida nos países desenvolvidos". Montagnier criou há dez anos a hipótese dos "co-fatores", que seriam fatores biológicos ainda não identificados, variáveis de região para região, capazes de alterar o padrão de infecção do HIV. Como ressaltou Levy, sabe-se que o risco de se pegar Aids numa relação sexual entre homem e mulher é pequeno, se comparado ao existente no sexo entre homossexuais masculinos. Montagnier supõe que um fenômeno biológico existente nos países em desenvolvimento poderia fazer esse risco aumentar: "Se um co-fator aumentasse em 100 vezes a infectividade do HIV, a transmissão heterossexual poderia se tornar comum", diz. Essa hipótese do pesquisador francês é muito criticada pela comunidade científica internacional. Mas tem sido usada por autores "rebeldes" como indício de que o próprio descobridor do HIV estaria "voltando atrás" e desacreditando o vírus como causador da Aids.
Comparadas a essas explicações, as idéias de Duesberg tornam-se atraentes por sua flexibilidade. Mas essa mesma característica levanta dúvidas quanto à sua solidez científica. "A 'hipótese da causa química' é construída de forma inconsistente, exigindo a inclusão de novas causas à medida que o vírus se alastra pelo globo", diz o virologista Paolo Zanotto, da Universidade de São Paulo. "Se nos Estados Unidos a causa da Aids é o excesso de exposição a agentes químicos e na África é a subnutrição, na Índia seria por causa do molho curry?"
Ninguém duvida que drogas e fome tenham efeito deletério sobre o sistema imunológico, mas a maioria dos cientistas sustenta que a Aids é um fenômeno específico e, vale ressaltar, sempre causado pelo vírus - que estaria presente em todos os casos da doença. Para Duesberg e os "rebeldes", o HIV seria apenas um "passageiro", pegando carona na fragilidade das defesas do corpo de quem usa muitas drogas ou passa fome. "O vírus é inofensivo e costuma ser rapidamente neutralizado pelo sistema imunológico de indivíduos sadios", afirma
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