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Em
abril deste ano, o biólogo molecular Peter Duesberg,
da Universidade da Califórnia em Berkeley, Estados
Unidos, ficou profundamente animado ao receber uma carta assinada
pelo presidente da África do Sul, Thabo Mbeki. Era
um convite para participar, naquele país, de um debate
sobre a relação entre o HIV e a Aids. Duesberg,
o mais destacado defensor da tese de que a síndrome
não é causada pelo vírus, aceitou a proposta
e foi até Pretória discutir com mais 30 especialistas
escolhidos pelo governo local - metade deles partilhando da
sua opinião. Após acompanhar as explanações,
Mbeki manteve a posição de seu país em
não fornecer drogas anti-HIV para mulheres grávidas.
Afinal, se o vírus não causa Aids, não
faria sentido tentar evitar a sua transmissão de mãe
para filho. Ainda mais considerando o alto preço dos
medicamentos para um país em desenvolvimento (cada
uma das pacientes consumiria cerca de 10 000 dólares
por ano com a terapia padrão).
A reação da comunidade científica internacional
foi imediata. Em julho, pouco antes da 13ª Conferência
Internacional sobre Aids, realizada em Durban, na própria
África do Sul, cerca de 5 000 cientistas de 80 países
assinaram uma declaração reafirmando a tese
de que o HIV causa a Aids. A crescente pressão política
e a revolta interna (que incluiu desde membros do Ministério
da Saúde até Nelson Mandela, o padrinho político
do presidente Mbeki) fizeram com que o governo sul-africano
se retirasse do debate, permitindo que alguns hospitais do
país passassem a oferecer drogas anti-Aids para gestantes.
Mas a polêmica trouxe os chamados "rebeldes da
Aids" de volta à mídia. Duesberg, espécie
de porta-voz do grupo, que vinha tendo seus artigos e idéias
sistematicamente boicotados no meio científico, encontrou
novo espaço. "Graças a Mbeki", disse
ele na época, "a coisa está esquentando
como nos velhos tempos."
Ao falar dos "velhos tempos", o cientista alemão
radicado nos Estados Unidos se referia à segunda metade
dos anos 80. Naquela época, ele era considerado por
seus pares um dos maiores virologistas do mundo, pioneiro
na descrição da estrutura dos retrovírus
(categoria a que pertence o HIV). Eleito para uma cadeira
na seleta Academia Nacional de Ciências americana em
1986 - e agraciado com uma dotação de verba
de pesquisador emérito, da ordem de 500 000 dólares
anuais - Duesberg chocou seus colegas no ano seguinte, quando
tornou pública a sua tese de que a Aids não
seria causada pelo HIV. Ao fazer isso, ele colocou em risco
sua reputação e sua carreira: perdeu o respeito
da maioria dos colegas e o financiamento para suas pesquisas.
O cientista afirma que o boicote contra ele é sustentado
pelos produtores de medicamentos contra o HIV (mercado que
chega a movimentar mais de 2,5 bilhões de dólares
por ano só nos Estados Unidos). Hoje Duesberg permanece
à margem da pesquisa de ponta sobre o vírus
e concentra seus esforços em atacar os pontos falhos
que enxerga na teoria dominante.
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